Gastronomia

A gastronomia da aldeia de Alcorriol, em tempos idos, era profundamente marcada pela simplicidade e pela riqueza dos sabores tradicionais. Num contexto de parcos recursos económicos, a alimentação das famílias assentava maioritariamente na agricultura de subsistência e na criação de porcos, cuja carne era um pilar essencial da dieta. Nada se desperdiçava, e cada ingrediente era aproveitado com engenho e criatividade, resultando em pratos reconfortantes e nutritivos.

Assim, entre cheiros, sabores e memórias, a gastronomia de Alcorriol conta a história de uma aldeia onde cada refeição era um tributo ao esforço, ao amor e à partilha.

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Legumes frescos que enchiam as panelas

Os campos envolventes forneciam legumes frescos e leguminosas que enchiam as panelas de ferro sobre o lume. A sopa da tripa, por exemplo, combinava os sabores intensos das miudezas de porco com hortaliças, criando uma refeição substancial para os dias mais frios. A couve com feijão era outro prato de eleição, onde a simplicidade dos ingredientes se aliava à generosidade das porções, aquecendo corpos e corações.

O requentado, que reaproveitava as sobras de refeições anteriores, era um símbolo da frugalidade da época, mostrando como o desperdício não tinha lugar nas cozinhas de Alcorriol.

As favas de azeite, ricas e saborosas, eram preparadas com o precioso azeite caseiro, extraído das oliveiras locais.

Sabores da Tradição: Do Forno de Lenha aos Doces de Festa

No forno de lenha, as petingas ganhavam uma nova dimensão de sabor, assadas lentamente até ficarem douradas e crocantes. A carne de porco, sempre presente, também se destacava na fressura de porco, um prato robusto que usava vísceras e miudezas, e no coelho com ervilhas, onde o coelho criado em casa se unia à frescura das ervilhas tenras. Para os momentos festivos, como casamentos e festas religiosas, a mesa enchia-se de iguarias doces: o arroz doce, cremoso e polvilhado com canela, e os tradicionais bolos de cabeça, cuja confeção era quase um ritual comunitário.

Memórias Doces: O Tempo do "Bolinho, Bolinho"

As broas dos santos são outra doce recordação da infância, evocando o tempo em que as crianças percorriam as ruas da aldeia, de porta em porta, pedindo o tradicional bolinho. Pelo caminho, cantarolavam em coro: "Bolinho, bolinho, à porta do santinho!", e quando chegavam à soleira das vizinhas, perguntavam com inocência e esperança: "Oh vizinha, dá bolinho?".

Em tempos áureos, quase todas as vizinhas ofereciam brendeirinhas, pequenas delícias que adoçavam o dia das almas. Todos nos recordamos das mães, tias e avós, que se juntavam na véspera do Dia de Todos os Santos, rodeadas de farinha, ovos e mel, num convívio à volta da confeção das brendeiras, mantendo vivas as tradições e fortalecendo os laços comunitários.

No Natal, o aroma doce dos velhoses de abóbora invadia as casas. Estes fritos, polvilhados com açúcar e canela, eram servidos com o famoso café das borras das velhas, uma mistura forte e aconchegante, perfeita para aquecer as longas noites de inverno.

Bolo de Figos de Alcorriol

O Bolo de Figos do Alcorriol nasceu da vontade de valorizar a ligação da aldeia aos figos e às figueiras, dando a conhecer estes sabores através de uma nova receita. Criado pelos chefs Sara Soares e Rodrigo Cláudio, da CAOS — O Futuro é Vegetal, é um bolo vegan que reúne figos frescos, figos secos e folha de figueira, combinando a tradição local com uma abordagem contemporânea à pastelaria.

A receita foi apresentada à comunidade no dia 15 de junho de 2025, durante o 4.º Encontro dos Amigos dos Figos e das Figueiras. Com o Salão do Alcorriol cheio, os dois chefs prepararam o bolo ao vivo e partilharam a inspiração e os ingredientes desta criação. A entrega simbólica da receita à comunidade marcou um momento especial: a aldeia passou a ter um novo bolo para fazer, partilhar e dar a provar a quem a visita.
Promovida pela Associação Cultural e Recreativa de Alcorriol, a iniciativa valoriza os produtos da terra e a memória da comunidade, criando novas formas de os apreciar. O Bolo de Figos junta-se, assim, aos sabores que fazem parte da identidade do Alcorriol e dos seus momentos de convívio.
O projeto contou com o apoio da Auchan Retail Portugal, no âmbito do seu programa de responsabilidade social, e da União de Freguesias de Torres Novas — Santa Maria, Salvador e Santiago.

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